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Sobre ser encontrado, ser filho (contrários e sublimações)

Sobre ser encontrado, ser filho
(contrários e sublimações)

No dia em que não estou na Igreja, não estou em mim?

“Se à imagem e semelhança do Amor foste criado,
Então dos teus atos o mais sincero e natural é o teu amar” (Imagem e Semelhança, Walmir Alencar)

No calor dos dias percebo-me disperso. Já acostumado a ser só mais um na multidão – um mero funcionário do todo – resfrio quaisquer chances de encontro com Deus no normal dos dias. Quando apropriado das oportunidades formais – como o bálsamo de um grupo de oração onde os meus estarão lá para me acolher – noto a clareza de meus pensamentos, o foco no sobrenatural, o rigor evangélico. É excepcional e maravilhoso, mas tais situações compõem pouquíssima porcentagem de meu tempo. Não é possível que baste para minha alma a migalha de um fim de semana, deixando para os meios um tortuoso seguir vazio.

No dia em que não estou na Igreja, não estou em mim? Sem o denso da reflexão (auxiliada pelo Espírito), a pergunta é retórica. Sabemos a resposta: não. Não estamos em nós mesmos. O que falta para que aja a reintegração de nosso chamado a sermos virtuosos e espirituais no cotidiano, em meio ao secular? Diante de uma sociedade valorizadora da força de trabalho, das especialidades técnicas, dos requisitos muitas vezes sobre-humanos, eu e você corremos o risco diário de não termos valor algum. Você é absolutamente substituível. Eu também. Ou o seu currículo foi atualizado? E essa tatuagem aí, será que com o uniforme da empresa será escondida para nós não passarmos vergonha por sua culpa?

Somos julgados gratuitamente o tempo todo. Não é vitimismo, apenas fatos. Mas assim como a terra tem seus métodos, igualmente o Céu. Quando paro no caminho, despedaçado pelas afiadas palavras dos que me desencontram, vivo a experiência profunda de ser encontrado por Deus - ou seja, experiências totalmente contrárias.

Quando o espiritual se achega como um espelho, só me resta enxergar o reflexo de quem eu sou realmente.

O que é ser encontrado? É descobrir-se filho, e não um qualquer. Não um número de RG, mas um filho. Você tem filho? Mesmo que não tenha, vamos trabalhar a imaginação um pouco:

-Você está na sala de estar. O seu filho, que está com os maravilhosos 3 anos de idade, está sentado no tapete, entretido com os brinquedos. Quando ele te olha, vem até você e pede alguma coisa, solicita um alimento, ou mesmo te chama pra brincar. Ele quer que você o enxergue brincando. A sua presença ali é a bússola dele, é o auditório cheio de um coração em crescimento. Mas será que ele só te enxerga quando está olhando? Não, ele pode te sentir. Você é uma presença naquela sala. Até aqui já está lindo e profundo, mas vamos para outro nível: tudo o que o seu filho quer é te amar, se expor pra você olhá-lo, instruí-lo etc. Mas, já parou pra pensar que a presença dos pais é tão poderosa que, mesmo que a criança não esteja olhando para eles, direcionando alguma atividade, ela fará algo para, intimamente, chamar a atenção dos pais? Continuando a cena: você está dando aquela olhada básica nas notificações da última rede social e, lá na outra ponta da sala, seu filho que está virado para a parede (você está fora do campo de visão) se decepciona com algo e começa a chorar.

O filho chora não só pela decepção da situação que é trivial, mas porque ele tem consciência de que ali existe uma presença que o acolherá. Que irá tratar de suas dores mais íntimas. Sim, a confiança envolvida é enorme, esperançosa. O filho sabe que não é um qualquer, porque vive a experiência de ser encontrado.

A experiência de ser encontrado por Deus é semelhante. Quando ocorre, é tão forte que é como se Ele colocasse uma parede diante de nós, nos separando do mundo. E ainda mais: não é uma parede qualquer, é uma parede com um espelho, quando na prática de perceber-se valioso pois filho, tua alma pode chorar porque sabe que o Pai estará ali.

A sala de estar é o seu cotidiano, as suas 24 horas, onde o Pai está para te olhar e te cuidar.

Na música “Contrários”, o Padre Fábio de Melo afirma, com muita sabedoria: “o ódio é uma forma tão estranha de amar”. Tal frase carrega detalhes sobre a raiz da pessoa humana: todos somos filhos, desde os melhores até os piores dos piores. Quando Deus criou tudo, como lemos em Gênesis, viu que era bom. O pecado nos corrompeu, mas não retira de nós o desejo íntimo de amar o Pai. Quando percebo, algumas vezes, o choro desesperado do meu filho (agora falando de minha experiência pessoal), noto a sinceridade daquela criança que ainda não sabe o que é a impureza, a mentira, e quero acolhê-lo, encontrá-lo. Se aplicarmos essa ótica a toda a humanidade, considerando a partir da perda da inocência, eu compreendo que os níveis de boa intencionalidade ficam catastroficamente mínimos. Mas a raiz do Amor continuará lá. A filiação permaneceu. Por isso que imagino o quão terrível será para Deus ver os que negaram até as últimas consequências sua condição original...

O que aconteceria à sua vida se aplicasse o filtro da situação do pai e o filho, na sala de estar, para o seu dia a dia com Deus? Qual é a diferença em lidar com as coisas não religiosas enquanto sei que Ele me olha e cuida e sonha com o máximo de meus potenciais? O trabalho não seria só trabalho, mas sim uma oportunidade de agradar a Deus? O normal continuaria normal, ou seria sublimado?

Neste dia em que compreendemos que não somos qualquer coisa, Ele nos chama a um seguir muito mais confiante. Às mulheres: vocês já não são mais estranhas, são filhas! Não são pedaços de carne, são mais alma que corpo - são filhas, são virtuosas pois foram encontradas! Aos homens: vocês que sempre foram esquecidos nesta sociedade do descartável, em Deus são encontrados, n'Ele recuperam a fortaleza porque foram encontrados!

O amor de Deus sublima todas as coisas que considerávamos como sem valor. O semanal da vida dá lugar ao eterno domingo, este hoje maravilhoso em que recordamos da ressurreição. E assim, sabemos que Ele está aqui. Sempre.

“Sou mais que um vencedor
Sendo que eu sempre fui o segundo em tudo que eu vivi
E me chama amigo
Não sou mais estranho, eu sou um filho
Eu sou Teu”.
(Mais – Os Arrais)

 

Rodrigo Duarte

Consagrado da Comunidade Vale de Saron

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