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Entre paredes e jaculatórias

Entre paredes e jaculatórias

As primeiras sete horas daquele domingo terminavam diante da vida que exigia uma leveza já desconhecida. Decidido a revisitar a paróquia onde havia crescido, visto o traje aveludado da nostalgia e engatilho o projétil que é a reflexão - arma poderosa e necessária. Chego ao local que possui diversas marcas do Sagrado - dados que são de meu conhecimento desde quando, ainda infante, via tantas representações artísticas e acontecimentos litúrgicos com entusiasmo heroico. E então inevitavelmente visualizo a grande cena: há uma criança levíssima em meio à rigidez de tantos rostos e corações adultos. Nela, as faculdades intelectuais não atendem à profundíssima liturgia que acontece, viva e flamejante, dentro daquele ambiente onde algo superior habita. A memória não acompanha exatamente as estrofes do salmodiar melancólico, apropriado ao tempo quaresmal. Não existe o menor rigor com citações de dezenas de textos bíblicos ou de teólogos que possam elucidar pontos essenciais da fé. Mas existe algo que o adulto ainda não alcançou - identifico o fato de que há uma contestação, mas o que embasa a afirmação? O que acontecia naquela criança perambulante que circulava os bancos de madeira rústica da igreja?

Olhando com carinho gratuito às pinturas que, para ela, são decorações ao estético da cena, dentro do sentimento puro que emana da contemplação consegue amar o sentido teológico para o qual o desenho a levaria. O seu fim é alegre porque é fiel. Uma entrega que entrega aos sentidos uma face sobrenatural mesmo estando dentro de um local feito por tijolos e argamassa. Uma abertura que prepara o caminho. Para o seu coração, que é aberto, a beleza contida nas imagens do Cristo e Sua Mãe antecipam no tempo fagulhas de conversão ao Sagrado Coração de ambos, pois no momento a observação é lúdica. Mas o toque que alcança a alma é real. E no seu futuro, talvez uma situação trivial lhe devolva à experiência da Beleza. Ou mesmo uma oração simples. Como as jaculatórias que tal criança ouve, várias vezes, quando emergindo dentre muitos fiéis na Santa Missa fica dispersa do clima de oração, mas não do de espiritualidade. Há algo que acontece além dos olhos que se fecham e ouvidos que se atentam. O toque do mesmo Senhor que a criança vislumbra à parede, pode atingi-la na forma de semente que em alguns anos pode germinar. Ou décadas. Aí estará a Misericórdia a buscá-la, com intensidade em situações que lhe sejam favoráveis.

É curioso como o poder da Misericórdia nos dá a liberdade para seguirmos por idas e vindas, tropeços e levantares, por pouco ou muito tempo - o quanto for necessário. Apenas em minha vigésima sétima época quaresmal, vivendo a experiência da Beleza que provém do Sagrado que me visita no contexto litúrgico, sou capaz de abrir-me com contrição a uma vida para a qual havia sido convidado no batismo. O arrependimento da forma que atuo diante do Sagrado é essencial para manter o coração cada vez mais tranquilo para ser agraciado com a presença que necessito. Mas, unido a ele, é preciso abrir-se à experiência da Beleza, quando meu ser curva-se para a ação de Deus no meu interior. E contemplando a face jovial e maravilhosa de Cristo, sou capaz de dar passos na direção daquela vida tão sensível à voz de Deus, como é daquela criança.

Enquanto o meu interior não reagir ao Sagrado como uma criança entusiasmada que anda entre paredes e jaculatórias - reveladoras de fragmentos da verdadeira vida a qual aspiro - não estarei disposto à ressurreição. Ao definitivo de Deus.

 

“Sempre mais jovem
Cada dia Tu estás mais jovem
Cada dia vejo-Te mais jovem, Senhor
Eu me renovo sempre ao Te encontrar”.
(Campanha da Fraternidade 2013)

 

Rodrigo Duarte
Consagrado da Comunidade Vale de Saron

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